Dota 2 no Brasil: há esperanças?

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Acabou a X5 Mega Arena-SP, assim como outros presenciais e com isso fica no ar aquela sensação constante: “E agora, será que já somos grandes? O que vem por aí, e o que esperar?”.

Para nós, jogadores de Dota 2, principalmente os brasileiros, é difícil adivinhar o futuro nesse cenário cheio de altos e baixos. Com tanta incerteza, estamos preocupados e queremos – não apenas queremos, mas precisamos de mudanças.

Quem somos nós? Somos uma comunidade inteira tentando incessantemente crescer e ser reconhecida. E mais: somos problemáticos, muito problemáticos.

Recentemente, saiu uma matéria no UOL jogos sobre como o Dota 2 vem falhando em crescer no Brasil, dizendo como o League of Legends possui maior base de jogadores e investimento e como “atraiu muito mais público” na XMA. Pode até ser positivo que a mídia fale sobre Dota, entretanto é impossível não se zangar ao notar que até hoje continuam fazendo essa comparação cansativa entre os jogos da Valve e da Riot Games.

É indiscutível – sim, LoL possui mais fãs. O simples fato de ter sido lançado antes e ser reconhecido pelo público anteriormente já pesa nos números. A postura de sua empresa com relação à publicidade é muito agressiva e expansiva, enquanto a Valve por muito tempo acreditou que apenas a qualidade de seus jogos e a comunidade seriam o suficiente para torná-los comerciais o bastante.

Mas as diferenças não param aí. Defense of the Ancients, jogo que deu origem aos MOBAs modernos, surgiu de um RTS (Real Time Strategy – Jogo de Estratégia em Tempo Real), considerado um dos gêneros mais desafiadores já criados.

Enquanto LoL tentou se afastar dessa proposta com mecânicas simplificadas, a equipe do nosso querido Icefrog nunca abandonou as origens e a complexidade inerente ao Dota 2, atraindo e afastando jogadores e fãs.

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Seguindo esse raciocínio, todos já estão cansados de saber as diferenças entre esses dois MOBAs. Não é comum comparar Pokémon com Final Fantasy, por exemplo. Embora ambos sejam RPGs, contudo possuem visual, mecânicas e objetivos completamente distintos.

É necessário parar de comparar os dois jogos. Dota 2 e League of Legends são de empresas, ambientes e ideais diferentes, para públicos diferentes.

Superado esse problema, é necessário olhar para o nosso próprio cenário e enxergar os seus problemas internos. Por mais que existam outros jogos que já dão certo, contando com uma boa base estrutural, Dota depende de sua comunidade para existir e crescer. Essa é quase a “ideologia” da Valve: vocês fazem, nós avaliamos.

E isso não é de agora. Essa postura vem desde o Counter Strike 1.6, onde o próprio cenário movimentou o jogo e transformando-o em um gigante no quesito competitivo dentro dos eSports. Atualmente, o CS:GO anda sofrendo um pouco pra se restabelecer no Brasil, porém ele está vivo, crescendo firme e forte com o auxílio da própria comunidade.

Dota 2 no Brasil, como vive? Do que se alimenta?

Imagine-se entrando numa capital tão extensa quanto São Paulo, sem conhecer ninguém. Essa cidade não tem placas de direção suficientes, mas há pessoas confiantes indo para todos os lugares. Todas andam com pressa e são ríspidas, já estão acostumadas à cidade grande há muito tempo, enquanto você é o novato naquele lugar, não entende nada e fica receoso de pedir informações, graças à reação dos locais.

É basicamente essa a sensação de alguém tentando começar a jogar Dota, completamente desnorteado e sem uma orientação de como chegar até um lugar onde possa aprender algo.

O nosso cenário ainda está bastante fragmentado: são diversas organizações de narração, várias organizadoras de campeonatos, inúmeros fóruns de discussão, sites com informação de heróis e nenhum possui “o selo de aprovação da Valve”. Fica difícil, para não dizer quase impossível, alguém novo encontrar o cenário brasileiro de Dota 2 por pura e espontânea vontade… É ainda mais impossível atrair quem não sabe da existência do mesmo.

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Como esperar que o Dota cresça tanto quanto o LoL se não existe nada que ajude uma pessoa nova a jogar? Não é raro observar pessoas falando que são novatas no jogo ou em grupos no Facebook, enquanto jogadores mais experientes destilam ódio, rindo e falando o quão noob são essas pessoas. Poucos se dão conta de que para o jogo continuar crescendo, novas pessoas precisam se interessar, serem atraídas pelas mecânicas.

Todavia, ouve-se cada vez mais a enfatização de como “Dota não é pra qualquer um”. Assim como dizem que jovens são o futuro da nação, os novos jogadores são o futuro de um jogo também. Sem pessoas novas jogando e sem atrair público, como fazer o cenário crescer?

Ressaltando mais uma vez: Dota 2 não é carregado por uma empresa, como o League of Legends, Smite, Heroes of the Storm. Ele é gerido pela própria comunidade. Por isso, deve-se sempre pensar antes de sair aos quatro ventos com um comportamento tóxico: se nós mesmos não nos ajudarmos, ninguém irá fazer isso por nós. E se nós não ajudarmos as pessoas novas, o jogo nunca vai crescer, e olha que o jogo já é bem difícil por si só.

Isso tudo vale também aos grupos que se propõe a ajudar o cenário, que não são poucos e nem mal intencionados, apenas nem sempre sabem lidar bem com certas situações. O ponto é que existe sempre uma competição por uma posição ainda inexistente no nosso cenário: nenhuma empresa ou grupo lucra com Dota.

Quem lucra, o faz individualmente e essas pessoas são raras. Mas é o suficiente para incentivar a criação de novas organizações, com um pensamento um tanto quanto distorcido – “como a Valve não faz nada, ganharei dinheiro com isso fazendo melhor do que já fazem”. A ideia não é ruim e não é tão errada, pensando em capital a curto prazo e durante um breve período.

Todavia, analisando a cena brasileira mais a fundo, há na realidade uma disputa por um capital ilusório. Ao invés de todos se unirem para fazer algo realmente estruturado e chamar atenção do público geral e da Valve, tudo termina em pizza – uma grande briga de egos sobre quem ajuda mais o cenário, discutindo até mesmo com a própria comunidade. Devemos sempre lembrar que a comunidade é formada por muita gente: jogadores, organizadores de campeonato, organizadores de evento, streamers, reclamões de Facebook, frequentadores de fóruns, redatores, enfim, todos e muito mais.

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Apesar disso tudo, é necessário ser pessimista? Por enquanto foi dito que o Dota depende de seus usuários pra existir, e atualmente a comunidade atua de um jeito menos amigável, mais competitivo – e não de um jeito bom. As organizações possuem desavenças entre si por mais espaço e benefícios, enquanto os jogadores brigam para decidir quem é o melhor utilizando o MMR como argumento. Isso sem contar nas discussões dentro das partidas, normalmente se transformando em brigas pessoais. Talvez seja uma luz no fim do túnel, mas o pessimismo não deveria ter espaço nesse assunto.

Primeiramente, é bom lembrar a todos que no ano passado aconteceram dois grandes eventos presenciais: a XMA e a BGS, onde a paiN Gaming recebeu mais de R$40.000,00 ganhando os dois presenciais em primeiro lugar. Veja bem: no ano passado, foram mais de R$70.000,00 de premiação destinados apenas ao Dota, se somarmos a premiação apenas da BGS e da XMA.

Esse ano, a XMA dobrou a premiação de R$7.000,00 para R$14.000,00 onde, com um maior número de eventos e consequentemente premiação extra, mais times possuem chance de participar de eventos presenciais e ganhar uma fatia desse bolo. Há também o fato do campeonato da BGS desse ano ainda não ter sido anunciado, porém aparentemente muitas surpresas e novidades aparecerão para o Dota no Brasil.

Em segundo lugar, aos poucos a Valve veem se mexendo, abrindo os olhos para a comunidade e fazendo pequenas mudanças que podem ser úteis se utilizadas da maneira correta. Mesmo sendo especulação, a empresa de Gabe Newell deu a entender que os campeonatos anteriores ao The International (o único organizado efetivamente pela Valve), serão feitos por organizações já existentes nos países onde elas atuam.

Aqui no Brasil ainda não há nenhuma organização com uma estrutura realmente grande de campeonatos capaz de atrair a Valve. Apesar delas serem muitas, são todas pequenas e com pouca estrutura. A presença de algo mais elaborado, com uma certa dose de investimento privado, suportado por uma equipe que de fato seja unida e trabalhe com a intenção de fazer o cenário de Dota 2 crescer sem intenção de ganhar dinheiro primeiramente, pode atrair a atenção da Valve. Mas pra isso é preciso antes crescer e mostrar que somos capazes de fazer isso, se não nunca haverá credibilidade.

Por isso, vem a pergunta: onde está o real problema? Será que é só a falta de investimento? Será que é a Valve ou será que transtorno se encontra no coração da comunidade, que bate forte mas acaba sangrando para todos os lados?

Esse não é o primeiro texto que pede atenção à comunidade, e muito provavelmente não será o último. A esperança existe e está em cada um de nós. Aqueles que leram até aqui acreditam no Dota, então acredite também no seu poder individual de fazer esse jogo crescer. Seja durante uma partida, agindo de maneira mais educada com os companheiros, indo aos poucos eventos, apoiando aquele jogador que faz streams ou ajudando uma organização: lembre-se que estamos falando de um jogo comunitário, e que uma comunidade é feita de indivíduos. Ou seja, cada um pode transformar – e muito! – esse jogo e esse cenário.

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