Meninas em jogos de Meninos?

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ISSO AQUI É JOGUINHO DE MENINO. SAI FORA GAROTA!

Jogadores de Mobas, se já estão inseridos nesse mundo há algum tempo, reconhecem que a quantidade de meninas presentes nos cenários competitivos é bem baixa, para não dizer nula. Porém, a pergunta que nos motiva a refletir é: O mesmo acontece nos jogos ranqueados? Nas partidas normais? Será que meninas têm interesse em começar a jogar esse tipo de jogos? Ou seria esse um estilo realmente restrito a meninos? Tentando responder algumas dessas perguntas, ou ao menos justificar o por que dessas “estatísticas”, escrevo esse texto.

Antes  de mais nada, é preciso me posicionar perante um simples fato: não é da natureza de meninos jogar vídeo games, se meninos gostam de jogos e têm mais facilidade para se adaptar a eles, não é porque nasceram para isso. Assim como o inverso, meninas não jogam porque isso não é natural a elas, também não é verdadeiro.

Isso ocorre porque culturalmente os meninos possuem mais contato com jogos desde a infância. Ainda hoje é comum ouvirmos que é aceitável um menino gastar muito tempo jogando, enquanto que meninas são repreendidas. Algumas até possuem algum contato com jogos, em especial os de consoles, mas dificilmente gastam tanto tempo jogando, ou mesmo chegam a levar a sério esse tipo de “hobby”. Por que trazer isso a tona?

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Bem, esse fato já faz com que meninas, inicialmente, se encontrem mais afastadas dos cenários de jogos online. Isso não quer dizer que meninas não se interessem por Mobas e outros estilos de jogos. Ou, que meninas sejam incapazes de aperfeiçoar técnicas e masterizar as habilidades necessárias aos jogos.

Pois é, sinto dizer. Talvez seja hora de alguém contar para o público a verdade. Meninas são bem capazes em jogos onlines, alguma delas provavelmente já até chutou sua bunda por ai. Meninas são tão capazes quanto meninos.

Porém, se isso é verdade, por que será que vemos tão poucas meninas em jogos online?

Bem, para sermos capazes de responderm essa pergunta, uma outra coisinha precisa ser levada em consideração. Ninguém nasce sabendo. Ninguém sai da barriga da mãe com um dispositivo chamado “Dota 2” instalado em si. Para melhorar nossa habilidade precisamos treinar, conhecer o jogo e aperfeiçoar seus elementos principais.

Se lembra das suas primeiras partidas? Você até pode tentar negar, mas o seu “eu iniciante” não tinha ideia do que estava fazendo. O jogo possui dimensões imensas que apenas o tempo e o treino ensinam.

Dito isso, nós jogadores um pouco mais experientes sabemos o quanto a comunidade de Mobas pode ser cruel com novatos. Inclusive, nós mesmos, quando nos deparamos com um noob, chegamos a perder a cabeça em momentos de ira.

Você deve estar se perguntando: O que isso tem a ver com o fato de que meninas não sejam tão presentes nesse cenário?

Eu lhe respondo: tem tudo a ver. Meninas são recebidas e tratadas de uma forma diferente pela comunidade. Isso é bom? Bem, até seria, se fosse um tratamento positivo. Mas o que realmente acontece é que meninas acabam sendo tratadas de duas formas igualmente ofensivas e desrespeitosas.

A primeira reflete um pouco o que acontece culturalmente: meninas são consideradas incapazes e não apenas iniciantes. Ao contrário do segundo caso, meninas são tidas como incapazes, como pessoas que não conseguirão melhorar nunca no jogo. Isso acontece porque a comunidade, ou seja, a maioria dos jogadores do sexo masculino, não acreditam que esse seja um espaço adequado para meninas.

– Talvez fosse melhor que instalassem ‘The Sims’ e brincassem de casinha.

Acho melhor eu instalar The Sims, Dota 2, Rage, Doom e jogar o que me der vontade!

 


QUEM NASCEU PRA SER SUPORTE?

Ainda dentro desse modo de tratamento perante as mulheres, há o predomínio de uma concepção imbecil. E peço desculpas pela palavra, mas não vejo outra forma de definir isso.

Do que estou falando? Daquele típico papinho de que lugar de mulher é no suporte. Sempre que ouço isso, sinto que nossa comunidade criou mais um jogador imbecil. Não bastasse a inferência nessa frase – de que mulheres devem ocupar o papel de ajudar um homem a carregar e eventualmente ganhar o jogo – também há uma desvalorização pela posição de suporte. As duas suposições são horríveis, em diferentes níveis.

Mas todo mundo sabe como suportes são importantes, não é mesmo? Apenas falamos que lugar de mulher é no suporte pra perturba-las e pra podermos ter elas por perto. Mas, aceitar que elas possam ser “protagonistas” do joguinho? Jamais.

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O que dizemos, seja para meninas ou para meninos, tem um peso muito forte. Tem insinuações muito pesadas. Em especial em jogos, onde a sede de ganhar acaba subindo à cabeça e acabamos falando milhares de besteiras.

Mas será tão difícil assim pensar duas vezes antes de ser preconceituoso? Sempre ouço meninos falando que gostariam que as namoradas não ficassem bravas por causa de jogos, ou que queriam possíveis namoradas que gostassem dos mesmos jogos que eles.

Porém, são esses mesmos meninos que falam que lugar de menina em jogo é suporte. As mesmas pessoas que querem namoradas compreensivas, também querem namoradas que não apreciem realmente o jogo. Que apenas ocupem o papel secundário ou de suporte. Seria engraçado se não fosse ridículo.

– Ah! Você e seu namorado jogam juntos então? Que legal. Ele é o carry e você é o suporte?

– Hã, não. Ele é o suporte e eu sou a carry. Inclusive não podemos jogar juntos porque eu perco a cabeça e fico brava quando ele erra.

 


UMA GAROTA? DEIXA EU ADICIONAR RÁPIDO

Não bastasse isso, ainda temos uma outra forma de tratamento. Vamos tentar exemplificar com uma situação:

Começa o jogo, as coisas estão indo não muito bem. Não é um jogo perdido, mas metade do time já está com a cabeça quente e se xingando. Até aí, mais um dia normal numa pub de Dota 2. Porém, há uma menina entre os jogadores do time. Ela também está brava como a maioria dos outros e quer vencer sem brigar.

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Ela pensa rápido e usa uma das melhores ferramentas, aquela que permite que o time se comunique em tempo real: a comunicação por voz (push to talk). Os outros quatro membros do time vão a loucura. Começam a floodar o chat, a gritar de volta e, instantaneamente, surgem quatro solicitações de amizade na Steam. E de repente, não mais que de repente, o foco do jogo muda.

– Mas você deveria se sentir feliz, afinal meninas gostam de atenção, não é?

– Aah, a humanidade as vezes não tem limite Talvez seja difícil de acreditar e, eu juro que não estou mentindo para vocês, mas meninas, quando jogam, têm os mesmos objetivos que meninos.

Ou seja, entrar em uma partida do jogo favorito, melhorar as habilidades com aquele herói, testar uma build e ganhar. Nenhuma mulher pensa: Vou jogar para várias pessoas que eu não conheço me adicionarem e, muito possivelmente, encher minhas caixas de mensagens com frases nada agradáveis.

Meninas não são troféus a serem exibidos em sua lista de amigos. Meninas não são itens colecionáveis. Meninas não estão no jogo/na comunidade para chamar atenção.

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Elas se inserem nesse mundo pelos mesmos motivos que todos os outros. Sejam eles relacionados a prazer, à hobbies, ou até à formas de ganhar dinheiro por meio de streams, campeonatos, imprensa, etc.

Por fim, meninas não são coisas, não são objetos, elas são parte da sua equipe, são companheiras e estão no jogo com o objetivo de ganhar.

É bem provável que a maioria das pessoas que venham a ler esse texto, irão se recusar a identificar tais fatos como do seu cotidiano. Porém, quando nos encontramos nesse tipo de situação, muitas vezes, agimos sem nem pensar. Acreditamos estar sendo legais com as pessoas, que essas atitudes são simpáticas. Mas, o que acontece é o contrário dessas inferências. Preste atenção.

Enfim, a ideia do texto não é fazer com que meninos parem de conversar com meninas nos joguinhos online, ok? Mas de, simplesmente, começarmos a respeitá-las.

Enquanto houver pais como os meus, existirão meninas que crescerão com coisas de “meninos” e com coisas de “meninas”, simultaneamente. Temos de aceitar que meninas não são tão diferentes de meninos e querem jogar o jogo da mesma forma. Se fizermos o mínimo para ser agradáveis (com ambos os gêneros), quem sabe, daqui a algum tempo, essa comunidade esteja ainda mais cheia, com meninos e meninas

Sobre a autora

mem_hanna_lasthitEssa matéria foi feita pela colaboradora Hanna “hannaway” Russo, pedagoga, mestranda em Educação e jogadora de Dota 2 (além de todos outros joguinhos online existentes).

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