Suporte uma ova: o sexismo em Dota 2

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No review de Dota 2  do site The Verge, há um parágrafo comentando a questão de Dota 2 ser, supostamente, um jogo direcionado aos jovens do sexo masculino, usando como argumentos as roupas das personagens ou o fato de que a maioria delas exerceriam apenas papéis de suporte no jogo. De forma sutil e um tanto superficial, a conotação que nasce desse argumento é de que Dota 2 é um jogo sexista. Eita Giovana.

Mas será que é mesmo? Conversar sobre sexismo nos games é bastante necessário, mas essa discussão não deve ser feita de maneira leviana, visando apenas a polêmica. Um parágrafo é certamente muito pouco para nos aprofundarmos na questão. Que tal darmos uma explorada melhor nesse assunto, usando como base os argumentos feitos pelo autor da matéria no The Verge? Tem muita coisa errada por lá, a começar pela frase “As heroínas de Dota 2 cumprem papéis estereotipados de suporte”.

Fica parecendo que o autor do texto, mesmo com suas 1.000 horas de jogo, não conhece Dota o suficiente. Das 17 heroínas em Dota 2, apenas cinco tem uma “tendência” a cumprir papéis de suporte. Alguns dos carregadores mais poderosos do jogo são do sexo feminino. Já tentou jogar contra aquela Medusa farmada que fez um Olho de Skadi (Eye of Skadi) e um Bastão do Rei Macaco (Monkey King Bar)? Pois é.

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Quer mais exemplos? Phantom Assassin, Templar Assassin, Drow Ranger, Legion Commander… Isso sem falar nas nossas nukers, pushers e disablers como Mirana, Death Prophet e Lina. Cadê essa maioria de heroínas relegadas ao papel de suporte, que eu não estou vendo? De qualquer forma, tratar o suporte como um papel inferior é esbanjar ignorância em relação ao jogo: como raios um carregador conseguiria fechar seus equipamentos de forma adequada sem a ajuda dos seus suportes?

Ok, então elas não são apenas suportes, mas não há como negar que quase todas as heroínas do Dota 2 usam decotes enormes e chamativos. Isso não é exclusividade do Dota, e a discussão sobre roupas curtas e coladas em mulheres com corpos que desafiam as leis da física abrange o cinema, quadrinhos, jogos e várias outras mídias. Olhando pelo lado positivo, Dota 2 já melhora bastante em relação ao original, em que algumas heroínas usavam roupas bem mais… chamativas.

Um bom argumento a favor do jogo é a forma como as artes oficiais das heroínas são neutras, sem poses muito provocantes como é o padrão em imagens de divulgação de jogos. Geralmente, o que vemos são imagens bastante apelativas como estratégia para atrair novos jogadores. Dota 2, por sua vez, mostra seus personagens fazendo o que eles sabem fazer de melhor: lutar, e não empinar a bunda.

Vamos também levar em consideração que as vestimentas provocativas não são exclusividade das personagens femininas. Muitos dos heróis também as usam (ou melhor dizendo, não usam!): Axe, Huskar, Juggernaut, Beastmaster, Troll Warlord, Phantom Lancer, Faceless Void, Undying, Witch Doctor, Pudge

Mas e a Queen of Pain? Ela geralmente é o centro dessa discussão, mas não deveria. É uma heroína erotizada? Sim – suas roupas, suas falas, e até mesmo a forma como rebola quando está parada são bastante eróticas. Porém, nesse caso, a história da Akasha precisa ser levada em consideração: ela é nada mais, nada menos que uma succubus, um demônio que se alimenta de energia sexual e dor. Encanar com a caracterização dessa personagem é quase tão tolo quanto reclamar das falas “quentes” da Lina. Um pouco de pesquisa para entender a história das personagens resolve todos esses problemas.

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E já que entramos no assunto das falas, há um outro argumento não mencionado no texto do The Verge, mas que merece nossa atenção: certas heroínas possuem vozes que soam um tanto quanto sexualizadas. Alguns exemplos são o  grito da Mirana quando ela morre, ou alguns gemidos da Crystal Maiden

Porém somos todos iguais na morte – inclusive no Dota. Com uma pesquisa rápida, não é difícil descobrir que nos áudios de todos heróis há gemidos dos mais variados tipos, principalmente na hora de levar a pior na batalha. Ouvindo alguns grunhidos da ala masculina, dá pra notar que na verdade um tapinha dói sim, e que todo mundo tem direito a grunhir da forma que bem entender quando bate as botas.

“Infelizmente apenas cerca de 15% dos heróis do jogo são caracterizadas como “fêmeas”.

Piadas à parte, algo bem claro no jogo é o número de heroínas… Infelizmente apenas cerca de 15% dos heróis do jogo são caracterizadas como “fêmeas” (incluindo não-humanoides e também a Puck), porém pra isso há uma boa explicação: a quantidade de modelos femininas diferentes no Warcraft III, onde Dota deus seus primeiros passos como um mero mod, era muito baixa. Fazer heróis diferenciados com uma quantidade limitada de modelos foi um dos maiores obstáculos que Icefrog encarou ao tentar desenvolver personagens do sexo feminino.

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No Dota 2, com a Valve, o espaço para a livre criação foi aberto e espero que mais mulheres sejam lançadas no jogo – de preferência mais heroínas com força como o atributo primário, já que apenas a Legion Commander representa o girl power nessa categoria. Antes um homem no Dota, a transformação da Legion foi algo bastante positivo. Tresdin é uma heroína de personalidade forte e marcante, que não segue em nada os esteriótipos da típica mulher guerreira nos games.

Mas e aí, Dota 2 é um jogo sexista? Na minha opinião, não. A sua sensibilidade pode ser diferente, e algumas coisas do jogo podem te ofender, mas vamos combinar que nosso MOBA favorito está muito melhor do que vários jogos que vemos por aí. As heroínas do Dota, no fim das contas, têm personalidades e histórias marcantes e passam sem problemas no teste de Bechdel.

Como jogadora, afirmo que gosto do que vejo, apesar de possuir uma única reclamação: ainda tá faltando menina para curtir um Dotinha comigo. Mas isso é assunto para uma próxima.

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