Xenofobia e mau comportamento em Dota 2

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Infelizmente, os preconceitos sociais e raciais são intrínsecos a nossa sociedade. Alguns são mais graves e outros não tão visivelmente perceptíveis. Independente de sua intensidade, eles estão presentes no nosso dia a dia. No Brasil, além do racismo como forma de segregação, temos uma predominante xenofobia ligada a nacionalismos ou bairrismos. E o nosso dotinha não conseguiu escapar desse aspecto negativo.

Mesmo com o avanço da tecnologia e a velocidade da informação atual – que permite passar horas em ambientes online nos divertindo e informando, ainda possuímos dezenas de preconceitos enrustidos. Por mais que se negue, uma grande parte do público consumidor de jogos, em especial MOBAs, é extremamente xenófobo. Para compreender como isso tem funcionado, vamos explicar um pouco o conceito de xenofobia e ouvir a opinião de alguns personagens referência no universo do jogos online.

Xenofobia: como perder partidas por nacionalismo ou bairrismo

Dentro do Dota 2, a xenofobia pode ser apontada e resumida facilmente. É um dos poucos aspectos  faz um jogador perder uma partida por raiva, desgosto, agressão moral, trollagem, dentro outros sentimentos ruins. Nesse contexto, a derrota vem por tudo, menos falta de habilidade ou comunicação entre o time. Qualquer pessoa já se deparou com uma situação na qual há o preconceito contra algum dos integrantes da própria equipe. Graças a isso, nasce um desestímulo geral e então testemunha-se uma rápida derrocada da equipe. Mesmo com a escolha dos heróis corretos e combates balanceados, basta alguém abrir o microfone para a festa do caqui começar.

Quem nunca foi xingado por um peruano quando cometeu um simples erro? Não se exalte – o mesmo acontece do lado de lá.

Como já foi visto em jogos como League of Legends, a união entre jogadores profissionais de diferentes regiões do mundo alavancaram o nível das equipes. A “importação” de coreanos trazidos para times brasileiros é um exemplo disso. Porém, ainda é pouco. Jogadores continuam xingando seus pares de países vizinhos durante uma partida. Brasileiros xingam argentinos, peruanos a bolivianos e assim por diante. Ainda falta muita união e bom senso dentro de um cenário que, se fosse completo, poderia atingir finalmente seu grandioso potencial.

Conversamos sobre esse assuntos com dois jogadores profissionais de Dota 2. Em suas diferentes perspectivas, Julian “Algodonchin” Palermo e Danylo “kinGRD” Nascimento nos contaram como se deu a relação pessoal com o preconceito em sua trajetória no jogo.

Julian “Algodonchin” Palermo é o atual carregador da equipe ABC, 3ª colocada no torneio de Dota 2 na XMA de São Paulo. Vive na Argentina, mas pode ser encontrado sempre jogando entre brasileiros.

Entrevista com Algodonchin

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Mesmo jogando profissionalmente em uma equipe brasileira (ABC), sendo argentino você já deve ter sofrido muito com xenofobia enquanto simplesmente aumentava o MMR. Como você acha que esse tipo de comportamento danifica o Dota?

Algodonchin: Eu acho que a xenofobia dentro do game só arruína e torna mais difícil ganhar a partida. A xenofobia é algo presente todos os dias com jogadores de Dota. Eu tenho a sorte de jogar competitivo e uma maior quantidade de pessoas me conhece, mas mesmo assim tem muita gente que xinga, porque eles gostam de fazer isso. Eles ligam o dota só para xingar e falar merda. A xenofobia danifica muito o jogo, causa muito estresse e você acaba passando um mau momento e perdendo partidas que talvez já estivessem ganhas. Danifica muito, pois muitas pessoas deixam de entrar no Dota porque não adianta jogar com caras que xingam. Mas acho que, infelizmente, é um negócio que acontece em todos os aspectos da vida.

Acredito que você receba xingamentos não apenas de brasileiros, mas de pessoas de todas as partes, como peruanos, bolivianos, entre outros. Você acha que está faltando mais união entre os países da América do Sul?

Algodonchin: Sim, falta muito mais união. Os caras na Europa têm ligas onde jogam juntos, tem mais jogadores profissionais, tem mais times conhecidos – mas isso acontece só pela união que eles têm. Eu acho que na Argentina, sobretudo e os times mais conhecidos (INTZ, ABC, PaiN, Isurus, NoT, UG, EGamers, DDA), os 15 ou 20 melhores da América do Sul têm se comunicado e jogam entre si para treinar, mas eu acho que nem todos têm uma boa relação. Existem muitas pessoas tóxicas no Dota ranqueado e também no meio profissional. Não vou citar nomes, mas estão lá! Acho que seria legal fazer uma liga, tipo SEL, onde os melhores jogariam seriamente, porém isso não vai acontecer se não houver premiação ou alguma coisa assim. Lamentavelmente, hoje em dia, nós jogadores sul americanos estamos muito mercenários. Eu acho que o melhor que os sul americanos podem fazer é uma junção e demonstrar que merecemos campeonatos gigantes tipo ESL ou MLG… Mas é necessário trabalhar muito para isso. Acho que uma liga da América do Sul seria um bom começo, entretanto não depende da organização da liga, depende dos jogadores.

Por que, mesmo com campeonatos cada vez aproximando mais as equipes da América do Sul e jogadores estrangeiros em equipes brasileiras como no seu caso, ainda é comum encontrar pessoas que discutem apenas pela diferença da nacionalidade?

Algodonchin: Depende muito de seu carisma. Eu pessoalmente gosto muito jogar com brasileiros (mais que com argentinos) e também acho que o nível competitivo no Brasil é muito maior que o nível competitivo argentino. Mas depende de cada um. Há jogadores que falam “você é jajaja, noob do caralho”, “você é peruano, gg”, “você é brasileiro, brasileiro é doente”. Quem xinga são os mesmos que odeiam qualquer nacionalidade. Também existem muitas pessoas que não gostam de jogar com estrangeiros por diversos motivos. Tenho amigos que não gostam pelo idioma, forma de jogar, etc. Mas acho que comecei a jogar na ABC porque não vi um bom futuro na Argentina e também porque tinha muita vontade de viajar a um campeonato estrangeiro.

O problema não é apenas conviver com algo que irrita (e muito). Não se trata unicamente de má conduta ou um simples desentendimento entre pessoas. Esse tipo de atitude – além de tudo que foi citado aqui – é um crime previsto por lei (Lei nº 7.716, de 05 de janeiro de 1989) e deve ser levado a sério, pois continua a valer mesmo dentro de um jogo online. A internet não é um território isento das regras e leis do mundo offline. Afinal de contas, apesar de jogarmos em um mundo virtual, a barreira entre a realidade é invisível. Os jogadores por trás de personagens fictícios, são pessoas reais, passando por problemas como qualquer um. Realizar atividades nas quais você é segregado por alguma característica da sua nacionalidade, região, sotaque ou hábitos culturais é estressante. Esse tipo de relação pode fazer a pessoa desistir do Dota, perder a motivação de exercer certas atividades, esconder um potencial, etc.

Há quem aponte a comunicação como um dos problemas entre os jogadores e fator desencadeador da xenofobia. Em um jogo disputado por times, extremamente estratégico, o diálogo é essencial. Em países que nem todos sabem inglês, como emplacar dois idiomas diferentes a fim de um entendimento mútuo? É um problema que se estende além da simples xenofobia por ódio, porém não justifica de modo algum tratar mal seu companheiro de equipe. Existem formas de se comunicar oferecidas pelo próprio jogo. Uma linguagem – ou sinais e alertas – universais, que fazem parte da jogabilidade,  e permitem guiar seus companheiros a glória.

O que mais intriga é que isso ocorre inclusive dentro de um mesmo país. Cariocas falando mal de paulistas, nordestinos sendo alvo de ofensas. O maior problema é que esse tipo de atitude, em conjunto com outros péssimos comportamentos, causa uma extrema desunião entre os jogadores. Isso é refletido no meio profissional, pois a comunidade é a base do comportamento de um jogador. O sentimento de união dentro de uma partida ranqueada muitas vezes é quase nulo e danifica o potencial de trabalho em equipe que o jogo proporciona. E a questão principal é: até quando o Dota sul-americano continuará tão desunido?

Esperar por servidores individuais é algo extremamente utópico e desnecessário. Esse tipo de implementação deveria acontecer por questões técnicas – como melhora do ping – e não para criar subgrupos de jogadores. Devemos esperar por melhores atitudes dentro de uma partida e não criar cada vez mais compartimentos fechados com uma condição específica de entrada.

Nota-se facilmente a diferença de pensamento entre um jogador profissional europeu e um sul-americano: os times europeus são muito mais unidos, apesar da grande rivalidade das equipes. Basta observar as ligas, que juntam os maiores jogadores em um só lugar. Na América do Sul em geral, nem rivalidade existe ao certo, mas o preconceito latente é ligado a uma característica intrínseca do jogador, que nada tem a ver com sua habilidade ou estatísticas. Ainda falta consolidar muita coisa.

Conversamos rapidamente com o nordestino Danylo “kinGRD” Nascimento, jogador da paiN Gaming, para saber melhor o que ele pensa sobre a xenofobia no Dota e como esses comportamentos afetam a América do Sul.

Entrevista com kinGRD

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GRD, você já deve ter sofrido com algum ataque xenófobo jogando Dota. Como você reage a atitudes tóxicas dentro de uma partida?

kinGRD: Já sofri bastante com isso, mas como sou um cara bem tranquilo, acabo ignorando sempre. A maioria dos jogos vão ter esses problemas, se eu for ficar chateado ou bravo toda vez que acontecer algo desse nível, nunca vou me divertir jogando.

Você acredita que haja falta de união entre os jogadores brasileiros e a xenofobia aumente isso ainda mais?

kinGRD: Isso é um problema que atinge o Brasil não apenas no Dota , temos que primeiro corrigir a atitude fora do jogo para que possa refletir dentro do jogo. Acredito que não seja apenas um problema no Dota, mas presente em todos os MOBAS. Acaba sendo um pouco mais aparente pois o Dota conta com chat de voz, a atitude e o respeito apresentado no game é apenas um reflexo dele na vida.

Isso afeta de certa forma o competitivo. O que falta para que os jogadores e times se aproximem mais a fim de melhorar o nível profissional da América do Sul?

kinGRD: Muito dos jogadores tem um passado jogando juntos em times ou contra. Isso acabou criando uma rivalidade. O jogador tem que deixar de lado suas diferenças e enxergar que apenas juntos podemos fortalecer o cenário.

Maus hábitos dentro do jogo são meramente um reflexo do nosso comportamento no dia a dia. Como foi dito pelo kinGRD: é necessário, antes de mais nada, corrigir a postura fora do Dota. Nossa postura. E quando afirmamos “nossa” isso inclui: a pessoa que é xenófoba por opção, aquela que é sem perceber, aquela que percebe e fica calada e aquela que luta contra e tenta mudar constantemente. Precisamos, mas até quando vamos ficar à deriva esperando simplesmente pelo bom comportamento de outro jogador?

“Simples, reportem os jogadores com péssima conduta

Infelizmente, o sistema de punição no Dota 2 não trata tais comportamentos da maneira correta e tampouco se preocupa em “educar” o jogador tóxico. Uma única pessoa estraga a partida, te leva ao ápice do estresse e nunca é punida. Mesmo reportando quantas vezes forem necessárias, a partida ainda estará perdida e há chances de cair novamente com o mesmo jogador no momento seguinte. Aqui já não se se trata apenas de xenofobia, mas mau comportamento em geral. É um sistema ineficiente de punição.

Procura-se um sistema de julgamento e punição efetivo

Recentemente, ao convidar um amigo para uma partida, tive o convite recusado. A justificativa dele foi: “Chego em casa estressado e fico ainda mais irritado com Dota“. Isso me fez refletir sobre o quanto é essencial ajudar outras pessoas sempre que possível, isso inclui as partidas que participo. Não dá para apenas julgar e ter um comportamento minimamente decente. Esse é o básico para tornar a comunidade melhor, não é suficiente, mas um começo.

Lembre-se: gentileza é sempre bem-vinda. É dever de todos auxiliar ao máximo seus companheiros de equipe, não importa o nível de habilidade que ele possui. Não existem jogadores noobs, apenas aqueles que se esforçam ao máximo para estragar o Dota de outros, esse são ruins de fato… Portanto, evite ser esse tipo de pessoa.

O melhor sistema de julgamento e punição – aquele que temos em mãos – é evitar os hábitos ruins e instituir, pouco a pouco, uma cultura de jogo saudável.

  • Gestalten

    Parabenizo muito a matéria, mas ressalvo a melhoria da sua revisão pré-liberação do artigo. Não só embeleza o texto, como evita a “cacofonia mental” no momento da leitura.

    Quanto ao tema, importantíssimo, eu estudo Psicologia e minha meta de carreira é seguir como pesquisador na área de Psicologia, cognição e games. No momento estudo outros fenômenos, mas sempre me questionei muito a respeito do desrespeito e agressões verbais deliberadas in-game.

    Ainda mais com a opinião de jogadores de evidência atual no e-sport.

    Parabéns pela matéria.

  • Metafórico

    Amigos, não adianta. Esse negócio de cultura saudável não existe (mais).
    Infelizmente (ou não), a melhor forma de jogar é uma party fechada ou bloquear o chat e microfone.

    • Michel Riba

      Eu passei a fazer o mesmo, mas parei de jogar porque percebi que não só a xenofobia, mas sim a falta de educação, não iria melhorar no Dota.

  • Anderson

    Depois da copa do mundo o que eu mais via quando perdia ou ganhava uma partidinha era Brasil 7×1. #GGermany

  • Matéria muito interessante, essa é realmente a realidade Dota 2 atualmente… Pelo menos é a do servidor BR em que jogo! Antes eu até discutia com certos tipos de pessoas, mas hoje não perco meu tempo!

    O máximo que posso fazer é reportar e ajudar a comunidade do Dota a ser mais amigável. Infelizmente o Brasil é um país muito xenofobico e isso é incompreensível!

    Esse problema logicamente não acontece só no Dota… A mentalidade de uma parcela, grande até, do povo brasileiro é podre. Fico muito triste com isso.

  • Rômulo Pedrosa

    Antes de brasileiro falar q sofre preconceito na gringa, devia parar pra cuidar de si mesmo. Fico puto qnd babacas. Me chamam de”Baiano’.nao que eu nao goste da bahia, mas pq doente fala isso pra generalizar. E te colocar pra baixo . Na mesma hora meto um reportão e boto “racist’

  • Geraldo Machado Junior

    Um dos grandes problemas é a falta de punição, tanto imediata pelo jogo ou a longo prazo. Imediata no sentido que deveria existir, assim

    como no HoN, o botão de “kick” , para expulsar jogadores por má conduta durante as partidas, apos o reports, a conta deveria ficar congelada, sem a possibilidade de jogar durante alguns dias.

    • Gustavo Franco

      A ideia é boa, porém inviável no dota, que tem a mentalidade atrasada que as pessoas se referem, usará este botão quando morrer uma vez e estiver “mad”… A maioria dos “haterszinhos” do brasil tenta “mitar”, não consegue, e culpa o time por não estar ali junto… Fora os mal educados que fazem comentários definitivos e EXTREMAMENTE NEGATIVOS, como todos nós sabemos, no Dota, cada jogo é um jogo, você não pode julgar as habilidades de alguém em definitivo.
      Acabei de fazer supp e um cara disse que eu não sabia farmar, mas ele era o farmer e ficou com apenas 50 LH’s a mais. Mas assim como a corrupção no brasilzinho, este problema nos jogos não terá fim, pois as pessoas sempre acham que estão certas e justificam seus erros culpando os outros.
      Não estou lhe criticando amigo, apenas expondo meu ponto de vista, espero não tê-lo ofendido.

  • Rodrigo Felipi

    Quero saber como eu posso denunciar racismo, ou xenofobia… através de prints? Se sim, mando pra onde?

  • Dante

    Parei de joga Dota por causa de jaja’s…

  • João Miranda

    EDUCAÇÂO…fora e dentro dos jogos online,reflete o kra como ele é e joga ,dentro e fora dos jogos sim !

    n só no dota 2,mais em qualquer outro game. =)

    Educação é tudo,faça sua parte e deixe os que n o fazem de lado,isso vai refletir porque o kra que pe hu3br vai pensar ,para chama r a atenção na proxima e assim por diante.!

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