O cenário sul-americano de Dota 2 entregou um roteiro que nem Hollywood conseguiria inventar. Durante a qualificatória fechada da DreamLeague Season 22, o suporte Steven “Stinger” Vargas simplesmente tomou um banimento da Valve no meio de uma partida oficial de eliminação. A Mad Kings estava jogando a vida na lower bracket contra a Thunder Awaken quando, do nada, Stinger caiu do servidor. Ele tentou voltar pro lobby de todo jeito, mas a conta tinha acabado de ser fulminada pelo martelo do ban. Resultado dessa brincadeira? Depois de dez minutos constrangedores de pausa, a vitória por W.O. caiu no colo da Thunder Awaken.
A Valve, fiel ao seu estilo, não soltou nenhuma nota oficial esmiuçando o motivo na hora, mas os detetives do Reddit já tinham matado a charada. O carry do time, David “Parker” Nicho Flores, andou jogando na conta do Stinger nos dias anteriores. Dividir conta é uma violação gravíssima dos Termos de Serviço da plataforma, o que torna o account sharing a resposta óbvia para a guilhotina súbita. Se você achava que Parker iria soltar uma nota de desculpas chorosa no Twitter, pensou errado. No dia 17 de janeiro, ele foi pra rede social, deu de ombros pra todo o drama e simplesmente ignorou as críticas com uma postura de zero arrependimento.
Mas o circo do Dota não vive só de treta nos bastidores; dentro do mapa as coisas estão igualmente caóticas. Enquanto a poeira baixava no SA, a atualização 7.41c chegou de voadora para chacoalhar o meta mais uma vez. Ainda estamos tentando nos recuperar do impacto do patch 7.41, que simplesmente deletou as Facetas do jogo, mas parece que o IceFrog encontrou de novo aquele ponto de equilíbrio para passar o facão em quem estava abusando. Não é um patch pequeno: 81 heróis tomaram ajustes e a mecânica geral do jogo mudou.
Antes de olhar pros personagens, é bom ficar esperto com o mapa. O pit do Roshan virou um buraco negro para visão aérea. Se você está voando lá fora — seja pulando nas árvores com o Monkey King, usando a ult do Night Stalker ou de Jetpack com o Clockwerk —, você não enxerga nada lá dentro, e vice-versa. Sobre os itens, a Soul Ring tomou um nerf chato que vai doer na alma de quem spamma Alchemist e Queen of Pain, com o cooldown subindo de 25 para 30 segundos. A Bloodstone agora te deixa mais parrudo com vida base, mas o ativo demora mais para voltar e o bônus de dano mágico em área piorou. O Harpoon também recebeu uma mudança bem específica: ele não puxa mais o caster se você estiver enraizado ou preso (leashed), embora o item ainda funcione em alvos que estejam sofrendo esses efeitos. Do outro lado da moeda, o Tormentor ficou um pouquinho mais generoso, e a cura deixada por ele dura cinco segundos a mais.
Para os heróis que vinham dominando as pubs, a fatura chegou pesada. Batrider e Beastmaster que o digam. O morcego perdeu dano tanto no Firefly quanto no Flaming Lasso e ainda por cima ficou mais lento. O Beastmaster teve sua força base cortada, e o kit de early game (os machados e o javali) ficou bem menos ameaçador, sem contar que o Drums of Slom agora causa menos dano em um raio menor. O Puck perdeu aquela apelação irritante do nível 25; a Dream Coil não atravessa mais imunidade a debuffs, ganhando apenas uma redução de recarga de 30 segundos — uma troca que tira muito do peso dele no late game.
O Lone Druid vai ter que torrar mais mana pra invocar o urso, perdeu o talento que cortava o cooldown em 25 segundos e derrete estruturas mais devagar no nível 25. Tidehunter perdeu regen base de mana (o que, somado ao nerf da Soul Ring, complica bastante a lane phase do leviatã), e o Pangolier agora começa mais frágil e gasta muito mais mana no Swashbuckle e no Roll Up. O Alchemist perdeu parte da regeneração inicial da Chemical Rage e teve os bônus do Greevil’s Greed com Aghanim derretidos.
A balança, felizmente, não pende só para o lado ruim. Tem muita gente rindo à toa nessa atualização. O Bounty Hunter está voando pelo mapa no início do jogo com um Shadow Walk mais rápido e cobrando menos mana para jogar Track em todo mundo, embora a Shuriken Toss vá sugar mais mana nos níveis mais altos. A Drow Ranger bate mais forte com as Frost Arrows e empurra a galera gastando menos com o Gust. Lina e Nature’s Prophet também saíram fortalecidos (com os Treants machucando mais cedo no jogo). A Broodmother ganhou um buff insano de 50% de aumento no raio da Insatiable Hunger, o que significa que as aranhazinhas ganham roubo de vida e dano bônus de uma distância bem mais confortável.
Ainda sobraram uns ajustes engraçadinhos e práticos da Valve. O Doom teve a regeneração da Scorched Earth travada exatamente em 6.66 em todos os níveis — ele não estava quebrando o jogo, mas a piada do demônio era boa demais pra passar em branco. O Morphling ganhou uma atualização essencial de qualidade de vida onde o Waveform agora é lançado na direção que você clica, mesmo se o alvo estiver fora de alcance. Mas se formos honestos, o verdadeiro vencedor do patch é o Tinker, que ganhou efeitos sonoros novos para as torres.
Com o patch 7.41c já disponível de graça na Steam, a única constante do Dota 2 continua sendo a necessidade de adaptação. Entre pro players caindo do servidor por banimentos no meio do jogo e suportes correndo na velocidade da luz — fica o aviso, a Templar Assassin agora corre mais rápido que o cavalo do Keeper of the Light —, a dica de ouro é abrir um lobby privado, testar os comandos de console e sentir a nova movimentação. Só não vai tomar W.O. por jogar na conta dos outros.






